
“Acho que a referência das fotos dele e do Cólera no meu livro são mais um lance de respeito pelo que o Redson fez pela música em si. Nunca o consideramos punk e menos ainda Hardcore. Hoje um monte de menininhos fofinhos anda desfilando com patches do Cólera, inclusive skinheads, e isso explica um pouco nossa revolta com relação aquela cena punkrockeira que a gente refutava; das outras bandas a gente nem se importava em falar, era assunto pra FM.
–– Como assim!!! Você está criticando o Cólera?
–– Assim mesmo!!! Eu critico a polícia, critico o estado, critico Deus e os políticos, os profetas e o diabo… Por que infernos eu não criticaria a Cólera?
–– Punk não foi feito pra seguir bandas caralho!!!
Aí eu pego uma guitarra, toco uma música com uns quatro acordes e invento uma letra contra o sistema na hora, e pergunto pro fanzoca retardado:
–– É esse seu deus? Uma banda que faz um som que qualquer
um pode inventar na hora? Ramones, Sex Pistols, Clash, Stranglers, Exploited, Vibrators???
–– Desculpa mano… isso te coloca no hall dos energúmenos que nunca pisarão um dedo sequer em Valhalla!!! Pra nós, punk estava além disso tudo. A inteligência era pra todos, e tocar três ou quatro acordes era algo natural dentro da cena. “Foda-se se você quer ser popstar!!!”
Entre as bandas Punks era outra conversa. As bandas eram amigas, sempre estavam nos roles quando a gente apanhava da polícia ou quebrava o pau com os skinheads nos encontros de turmas do subúrbio ou do centro.
As bandas anarquistas eram muito mais impetuosas com relação ao aparecimento de nazis nos shows: Subversivos, TNV, Refugo, Reator, Discarga Violenta, Anarco Libertário, Anti-Timpanos, Extrema Agonia, Insurreição, BHI, Extremamente Irritante (enquanto eram do MAP).
Essa gente sim estava nas organizações mais adentro do movimento libertário. Sem mais.
Muitas outras bandas apareceram na cena, cedo viraram memória e depois recordações, eu fiquei na margem da cena todo esse tempo, felizmente estou ainda vivo do mesmo modo que antes, pedindo instrumentos emprestados para tocar, roubando membros de outras bandas com o intuito de levar um som e trazendo uma vibração mais dispersa, onde a música é outra coisa que o centro das atenções, com todo o respeito aos músicos, mas esse lance de banda e fã não pega bem pra punk e Anarchopunk.”
“Assim que a cena punk surgiu pelo mundo, alguns tipos padrões foram imediatamente escolhidos para representar a nova onda, e como os músicos representavam uma classe mais organizada dentro desta cultura que se popularizava, conveio aos exploradores de mercados culturais que o modelito de jaqueta de couro, roupas pretas e correntes na cintura e com alguns alfinetes espalhados pelas roupas fosse o molde perfeito para os revoltados da época.”
“Alguns Anarchopunk ainda perdem o tempo com essas bandas e investidores capitalistas que ficam a explorar a produção alternativa. Essa galera precisa aprender que ela não ganha nada com isso, que deviam de verdade apoiar as produtoras revolucionárias e não as independentes. Foda-se a independência, pois ela só cria um mercado
alternativo, como o nome já diz é uma alternativa ao mercado convencional, mas ainda são os mesmos investidores capitalistas do passado. As gravadoras alternativas são tentáculos da mesma indústria, são empresas do mesmo perfil que as de maior porte, são apenas diferentes na maneira de omitir sua verdadeira identidade e seus inescrupulosos meios de manipular a cultura do underground e tirar das nossas mãos o que é nosso. O Punk é uma cultura de protesto revolucionaria, a alternatividade é uma forma de exercer uma apropriação cultural. Como se precisássemos de interceptadores pra produzir e vender o que nos pertence.”
“Primeiro elas são como nós, depois se edificam sobre nossa cultura e nossos esforços, depois somos minorias indefesas pois criamos e sustentamos um monstro que nos impede de questionar suas atitudes fascistas, sua ganância por um dinheiro que poderia ser dos coletivos, das causas sociais e da militância “alternativa”. Muita gente já ganhou dinheiro falando da miséria do povo, assim como os políticos que prometem mudar as vidas das pessoas, algumas bandas levam o som com letras de protestos para ganhar a simpatia da juventude, mas no fundo só se promovem em cima de causas populares, e ai não precisa muito tato e senso de depuração pra entender qual será a próxima banda que vai posar pra fotos do caminhão dos palanques eleitorais sem levar um questionamento sério a isso tudo. Não nos compete ditar o comportamento musical e social das pessoas, mas saiba que temos uma identidade sociopolítica e temos o direito de defende-la destas manipulações partidárias.”
“Tipo bandas que já citei aqui, falam sobre guerra, porem nunca colocam sequer alguma moeda num cofre de coleta para ajudar refugiados, nunca planta uma árvore na cidade, jamais na vida ajudou coletivo de ação na favela e nem se preocupou em buscar justiça para pessoas que sofrem perseguição xenofóbica, racial, sexista e de classe social dentro da própria cena.
Estes rebeldes anônimos de carteirinha vermelha já estão registrados, depurados e estão formalmente reconhecidos!
Não falo aqui de algum levante de bandas que foi feito na cena HC alguns anos atrás, onde a ideia de purificar a cena e expurgar falsas bandas acabou estimulando o tipo de Punk que corresponde a uma cena racista e americanizada/eurocêntrica. Pra esses punkinhos que ainda dizem que a DISMODINHA é punk original, saibam de uma coisa e reflitam sobre suas ações e conceitos, pois na maioria das vocês estão só atendendo a este tipo racista de uma classe média americana ou euro que se fecha no núcleo de suas comunidades brancas, e que ainda, por ironia de coincidências arbitrarias só acaba sendo que as bandas reais e verdadeiras são sempre as que compactuam com este preceito de banda punk branca.”
“As pessoas não assumem as posturas condizentes com a nossa cultura, pois julgam que não valha a pena se expor e defender uma ideia que envolve um risco de confronto de ideais e de ações.
Saibam que estes confrontos moldaram nossa cultura, nosso caráter e nossa forma de enxergar e praticar a cultura Punk.”
“Ao mesmo tempo em que o Hardcore criava raízes profundas na cultura do punk, as tendências mais conservadoras da juventude se levantavam, como Mods, Teddy Boys e skinheads e rockers tinham essa sequência de idolatria a Elvis, aos roqueiros brancos que se apropriaram da cultura negra e a transformaram em um instrumento de diversão.”
“A música não vai conduzir à revolução como vai a administração das empresas que a gerenciam, se esta segunda for auto gestionária, aí sim a música é revolucionaria. Se não, é apenas mais uma arma – nossa cultura – apontada contra nós mesmos.”
“A coisa é bem simples, aliás, acho que é o que separa os punks dos pseudo punks. Os pseudo punks se aliam com skinheads, quer de direita ou de esquerda, e procuram numa linguagem comum exercer o poder de massas sobre a verdadeira filosofia do punk, que é muito mais, na individualidade, desprendida do sistema do que de movimento de massas. Os punks negam a ideia de construção de fenômeno de massas e opõem certo conceito de expressão individual – criar seu visual, fazer seu som próprio, colar nas bancas pra ser reconhecido e irmanado, combater através da arte, da ação direta ou da propaganda pela ação as correntes culturais autoritárias (Nazistas contra culturais no metal, skinheads, rockeiros pop fascistoides, imprensa de massas etc.).”
“Como um elemento alternativo ao punk, os Anarchopunks fazem todas as partes essenciais do punk uma bandeira, e acima de tudo isso, colocam as táticas de combate anarquistas sobre a defesa de seus ideais, a liberdade organizacional (alguns punks escolhem a liberdade pra não se organizarem de forma alguma) e a liberdade de expressão dentro e fora do movimento, a ligação do punk com outros segmentos culturais que representam lutas libertarias ou libertadoras.”
“Tudo respira certo ódio e há grande sarcasmo nas entrelinhas e por isso a gente não vibra tanto nas FMs ou na televisão no horário nobre. Somos inapropriados para menores, para mocinhas e velhinhos e para cidadãos de bem que passam suas vidas extorquindo suas esposas no convívio doméstico, espancando os filhos ou abusando das adolescentes dentro de seus domínios patriarcais. Foda-se esta porra toda!!!”
“A gang não é mencionada por que não há motivos de citar uma fração de pouca significância em uma dada circunstância, antes de tudo, é uma gang e nós Anarchopunks somos conhecidos por não atuarmos com as gangs, pois são regionalistas, violentas, alienadas e desprovidas de propósitos mais significativos na sua luta, embora sua música e sua aparência possam parecer punks pra população, pranós há um istmo nesta aparência e nesta música, que se faz presentena atitude e nas complexidades necessárias ás ações que determinam o caráter do grupo.”
PDF 237 paginas
Valo Velho O verdadeiro delinquente ……………………………………………….. 12
A história vivida e as memórias ………………………………………………………… 20
As mudanças e as evoluções ……………………………………………………………. 32
De Sinatra a Elvis, de Sid a Valo Velho……………………………………………….. 46
A pessoa diluída na cena dos subúrbios. ……………………………………………. 74
A luta de classes no Movimento ……………………………………………………….. 84
O Sujeito Valo velho ……………………………………………………………………….. 94
O processo até a editora………………………………………………………………… 106
A minha música desde os primórdios………………………………………………. 116
As cooperativas e o movimento ……………………………………………………… 136
ENCONTRO PUNK AMAZÔNIA EM KAOS ………………………………………….. 142
As distros e o apoio ao Encontro Punk nacional…………………. 148
Cooperativa Insumisión ………………………………………………………….. 149
Do Morro produções ……………………………………………………………… 153
Banda Revolta Popular. ………………………………………………………….. 154
No evento de Belém do Para: ………………………………………….. 156
A agenda do evento ……………………………………………………….. 160
Alojamento …………………………………………………………………………… 161
A questão identitária do Punk …………………………………………………. 162
Desapropriando o Currículo ……………………………………………………. 167
My Way ………………………………………………………………………………… 172
Oficina de estilismo e zine ………………………………………………………. 176
Oficina de Pirogravura ……………………………………………………………. 178
Cabanagem …………………………………………………………………… 180Pág. 1 anotações ……………………………………………………………………. 183
Pág. 1 anotações ……………………………………………………………………. 184
Pagina 2 anotações ………………………………………………………………… 187
Pág. 3 anotações ……………………………………………………………………. 188
Pagina 4 anotações. ……………………………………………………………….. 191
Punk, Anarquismo e Feminismo ………………………………………. 194
Os Anos do NHC …………………………………………………………….. 201
MOB …………………………………………………………………………….. 207
Som ……………………………………………………………………………… 209
BillyWolfGangz………………………………………………………………………. 210
DOR ……………………………………………………………………………………… 210
Domingo 22…………………………………………………………………… 212
Johnny HC. ……………………………………………………………………………. 214
Marcelinho (DOR) ………………………………………………………………….. 216
Despedida …………………………………………………………………….. 219
Agradecimentos. ……………………………………………………………. 220
Relato de Cena Curitiba 2019 …………………………………………………………. 223
Sumario figuras/fotos ……………………………………………………………………. 232
Finish ………………………………………………………………………………………..234
























